30 segundos na boca e pra sempre na bunda – o paradigma da perda de peso…

30 segundos na boca e pra sempre na bunda – o paradigma da perda de peso…

Por Fabiana Honorato em 30/08

Dotadas de inúmeras estratégias de conquista, as guloseimas se insinuam atrevidas, alimentando bem mais nossos olhos do que nosso estômago. Mas o desejo do corpitcho veraneio fala mais alto e não nos conformamos; reconhecemos não só o impacto que centímetros a menos causam na nossa vida, como tentamos alucinadamente frear o (quase incontrolável) desejo de detonar a pizza fria e a coca de ontem, remanescentes naquela geladeira culpada que nos faz pecar.

Uma revista estrangeira definiu calorias como as minúsculas criaturas que habitam nosso armário, ajustando nossas roupas um pouquinho a cada noite, sem que notemos, pois comer sempre e foi e sempre será um dos prazeres da nossa vida.

Nossa predisposição à acumular calorias nos acompanha desde quando morávamos em cavernas e vivíamos num ambiente onde a escassez de alimento nos forçava a comer o máximo que podíamos, pois não sabíamos quando seria a próxima refeição. Éramos também mais ativos. Caçávamos e percorríamos longas distâncias em busca de alimento e abrigo. Os tempos mudaram, mas nosso instinto se manteve conosco. Hoje, cercados pela fartura e pela tecnologia sofremos não só para alcançar o padrão de beleza inalcançável (imposto pelo programa de edição de fotos), como também para nos mantermos saudáveis e atléticos. Movimentar-se tornou-se o desafio épico da nossa geração; pelo pc e pelo celular, fazemos quase tudo.

Passamos a vida na montanha-russa do engorda-emagrece sem fim. Contentes-descontentes, encontramos dúzias de desculpas e culpados pelo nosso descontrole. Alimentamos o monstrengo da banha com o prazer momentâneo daquele pedaço de bolo, em seguida amargamos a morte do anjo fitness que traz dos céus o prazer futuro: o número menor no figurino. Aí está o X da questão pra quem quer emagrecer: não abrir mão do prazer momentâneo em detrimento do prazer futuro; parece que aqueles segundos calóricos do chocolate prazeiroso na boca estacionam pra sempre na bunda.

Nós bem que tentamos. Começando na segunda, descontinuando lá pela quinta ou no Happy Hour de sexta. Incapazes de andarmos sob alguma disciplina, apelamos à todas as promessas milagrosas que garantem quilos a menos. Vendidas em embalagens estrategicamente ornamentadas com laços do orgulho humano, pagamos os olhos da cara por um fiapo de esperança num pote de comprimidos que não sabemos do que são feitos. O que importa mesmo é o que prometem fazer. Dessa maneira, tiramos de nossas costas o peso da responsabilidade do autocontrole e o transferimos para a receita-fantástica que fará tudo por nós. Tentamos comprar em cápsulas a força de vontade que a natureza supostamente não nos deu.

Ignoramos que nosso corpo é dotado de mecanismos incríveis que garantem a nossa sobrevivência; sem eles estaríamos extintos há tempos. Se deixássemos de lado as promessas milagrosas, nos daríamos conta que nosso sucesso fit é oferecido de graça pelo nosso organismo inteligente. É só saber usar as ferramentas fisiológicas que a natureza desenvolveu. Precisamos partir do pressuposto que a tarefa é mais nossa do que da cápsula e do professor-personal (nosso fracasso, sua culpa). Mas por enquanto, nosso imediatismo não nos deixa aceitar de uma vez por todas que nosso corpo responde positivamente a estímulos gradativos e negativamente a tratamentos de choque. Preferimos a opção “não importa de que jeito, contanto que os centímetros diminuam”. E voltamos aos 30 segundos, devorando guloseimas despreocupados, pois ainda tem a salvação que virá da cápsula milagrosa.